O Cantador
Luciano Menezes
Eu sou contra a dor,
contra a vida da morte
e contra a morte do amor.
Eu sou cantador.
O Cantador
Luciano Menezes
Eu sou contra a dor,
contra a vida da morte
e contra a morte do amor.
Eu sou cantador.
Relendo Drummond
Luciano Menezes
Quando nasci não havia mais anjos
e os gauches já eram raros.
A pedra do caminho se partira
e um dos fragmentos fez a minha mente
manchar o chão de vermelho.
A terra ficou improdutiva,
o suor perdeu o sal.
E a vida seguiu em frente
para sempre.
Relançado o primeiro livro publicado do Drummond

80 anos de Alguma Poesia - foi republicado o primeiro livro publicado por Carlos Drummond de Andrade

Quando eu me acabar
Luciano Menezes
quando eu me acabar
nada vai mudar no mundo
não vou ser nome de rua
não vou nomear a praça
não vou fazer falta em nada
quando eu me acabar
o mundo vai ficar igual
igual o dia em que nasci
nada se modificou
nem mudou pr’eu existir
quando eu me acabar
não precisa me enterrar
nem pagar p’ra se livrar
desse dia em que me fui.
Quando voce passa e não me vê
Luciano Menezes
E seu der uma topada na rua e esfacelar meu dedo
talvez nesse momento exato voce esteja passando
e tenha dó de mim e o que será que irá acontecer
e se voce nem perceber que eu perdi meu dedo
porque estava olhando pra voce
como será que seguirei andando lhe olhando
e meu dedo o que acontecerá ou que se irá fazer
talvez resolva colar com esparadrapo
me prender pra ver se ele se regenerará
mas o que irá acontecer se voce nem me notar
pode ser que amanhã lhe veja passar já com o pé curado
o seu sorriso poderá se abrir para mim – amarelado
mas não se preocupe que farei com que ele se transforme
em uma gargalhada ou um sorriso franco
e talve role até um beijo de cumprimento
e assim acabará meu tormento.
Diário
Luciano Menezes
Todo dia eu faço
tudo sempre igual.
Acordo, levanto e leio
- o mesmo jornal.
Feliz ano novo.
Luciano Menezes
Adeus ano velho.
É um caso precoce
de envelhecimento
nunca mais festejará
um aniversário
acabou.
Nunca mais se falará
a não ser de recordações
e se deixou alguma coisa
é passado e não tem volta.
Assim começa um novo ano.
Confissão
Luciano Menezes – 2009
Curiosamente eu percebi
que ao olhar uma mulher
eu a vejo sempre nua
despida de pintura,
de tintutura
ou de unha postiça
despida também
de cílios falsos
de perfumes outros
que não exalem só de si
é
aí talvez seja o problema
pois sempre fica um dilema
quando ela se transforma
e não enxergo mais
a sua alma pura
o seu esplendor natural
somente o desejo
me inebria a alma
é tanto desespero
que me retesa a nuca
funde a minha cuca
e aumenta o tesão
O animal me toma
e busco a minha calma
na sua ternura
na sua doçura
no seu carinho intenso
me perco em seu regato
me esqueço do meu lenço
e as lágrimas seguro
pra não ter que entregar
que vida futura
não mais tem razão
se ela não estiver
me levando pela vida
me levando pela mão
e deixo totalmente
me envolver em uma paixão.
Seguindo
Luciano Menezes
Cara de Tupã
pele como rã
isso a nada se compara
Eu acreditei
quando quase li
sua carta vã
que nada, nada me falava
Sob uma saia
a combinação
e embaixo a pele
que aos pouco seduzia
Mas dizia pouco
muito prometia
e na alma nada tocava
Foi então que vi
como me enganei
tudo o que conquistara
Era apenas sonho
fui feliz assim
mas enfim aventurava
A seguir sozinho
não busco um ninho
nem que seja pra me abrigar.
Paisagem Inútil
Luciano Menezes
Ontem vi um quadro
que estava vivo.
Lá estava o lixo,
lá estava o mato,
lá se via o rato,
e também o homem.
Cena cruel,
desigual,
lutavam juntos
com igual denodo,
nos escombros,
buscavam todos:
vencer a fome.