Há muito que não tínhamos novidades com relação a Caetano Veloso, que ontem estreou como articulista do jornal O Globo.
Em seu primeiro artigo mostrou logo a que veio, tendo vista as eleições nacionais do Brasil, O Globo contratou Caetano que veio idolatrar mais uma vez o ACM. Falhou na forma e no conteúdo, que sempre utiliza para causar furor. Os seus arroubos não mais causam indignação é apenas a constatação que perdeu o viço.
Quem durante todo a existência combateu a ordem vem defender o indefensável “Aproveitar o aproveitável de ACM e fazer melhor“, a rima não está correta e a troca do advérbio pelo adjetivo não esconde o objetivo.
A fluência de Caetano escritor, se perde ao se misturar nas ideologias do endeusamento – “ACM voltou em glória nas eleições seguintes“, para o bem da política brasileira ACM deve ser lembrado para nunca mais ser imitado ou seguido.
“Ó Pai, ó!” é recuperação da cultura baiana registrada nos livro de Jorge Amado, em breve teremos no cinema “Quincas Berro d’água” que remonta a uma realidade totalmente baiana e antes do “axé música”, afinal a Bahia continua viva e com muitas Gabrielas. Negar a cultura local é talvez querer trazer o Pelourinho para um filme realizado sob os holofotes da cultura de massas importada de Hollywood, e hoje essa cultura se mostra decadente. Os atuais filmes brasileiros e argentinos mostram leveza profundidade e comprometimento com a cultura nacional, apesar de independentes e livres, assimilam muito bem tecnologia moderna e representam os movimentos culturais, fortalecidos no Brasil, pelo governo atual.
Apesar de morar no Rio de Janeiro, aparentemente tenta mostrar conhecer os movimentos culturais que revitalizaram a Lapa. Esse movimento surgiu sem apoio de ninguém – iniciativa privada ou governamental. Somente um movimento de recuperação do samba e a dedicação de muitos que hoje são deixados à margem, trouxe de volta a boêmia pra Lapa. Hoje a inciativa privada está considerando um local de bons investimentos e o poder público que tentou monoliticamente enquadrar a Lapa foi vencido pela participação popular. No início foram apenas os sonhadores que queriam ver a Lapa voltar a ser a Lapa, e como sonho foi absorvido por jovens compositores e músicos que se dedicam a manter vivo o samba, o choro e todos os ritmos que embalam as noites lapianas e tornaram realidade o que hoje se vive em volta dos Arcos da Lapa.
A ideologia não é torcida, nem nunca pretendeu ser organização que apenas faz festa. A ideologia tem atrás dela a vinculação da exploração humana para aumentar seu lucro, ou, dividir o lucro e aumentar a sociedade de bem estar para todos. E a receita de ACM estava e continua vinculada, pelos seus seguidores, a dar condições de maior lucratividade aos que detém o poder financeiro em detrimento do aumento e da participação de mais pessoas nos benefícios sociais.
Essa talvez seja a confusão causada ao pregar que devemos “Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas”. Politicamente devemos dar condições e permitir que a maioria da população deixe fluir seus desejos e torne assim seus sonhos realidade. E consiga controlar os inescrupulosos e mostrar que o maior objetivo é o bem estar de todos.
Caetano Veloso

- articulista de O Globo
Política: o Largo da Ordem
Caetano Veloso 09 de maior 2010
Quando disse a Leminski, no começo dos anos 70, que me encantava a recuperação do Largo da Ordem, no centro de Curitiba, ele riu: “Você adora enganações feitas para a classe média.” Respondi que adorava mesmo. Sempre à esquerda, Leminski via limpeza, iluminação, policiamento e restauração de prédios como maquiagem — e olhava com desconfiança meu interesse por Jaime Lerner, o então prefeito da cidade que fora indicado pelo governo militar. Eu odiava o regime — e desprezava os que chegavam ao poder em acordo com ele. Mas não via o Largo da Ordem como enganação.
Bem, talvez se pudesse dizer que aquilo se dirigia à classe média. Mas eu ri ao dizer diante da cara do poeta: “Eu sou classe média.” O que de fato pensei foi: se se fizesse algo assim com o Pelourinho, o Brasil decolaria — ou estaria mostrando que já decolara. Era sonhar demais.
Ainda nos 70, os sobrados da área estrita do Largo do Pelourinho foram restaurados.
Lembro duas reações negativas: Candice Bergen e Décio Pignatari. Em ocasiões diferentes, ouvi de ambos: “Parece a Disneylândia.” Eu próprio, diante das tintas plásticas usadas, apelidei o novo Pelourinho de Giovanna Baby.
Mas a verdade é que, tendo crescido em Santo Amaro, eu não achava artificial uma rua com casas antigas pintadas com tintas novas: era o que acontecia ali a cada fevereiro, mês de Nossa Senhora da Purificação. Achei que Candice e Décio pensavam que casa velha tem que ter limo e reboco caindo. Décio, de Sampa, queria velharia mais “autêntica”. Candice, de Los Angeles, reviu o que expõe a artificialidade de sua terra natal: Disneylândia.
Já eu só via o esboço de realização da promessa do Largo da Ordem.
Nos anos 90, toda a região do Pelourinho ga nhou o tratamento que eu imaginara utópico em 1972. Há queixas contra os métodos usados para a retirada dos moradores.
Há a frase bonita de Verger: “Devia se erguer no Pelourinho um monumento às putas.” Elas é que mantiveram de pé esse pedaço da cidade.
Em 1960, vendo a harmonia de formas exibida em matéria deteriorada, eu me sentia fascinado também pela degradação dos habitantes. A prostituição mais anti-higiênica manteve os sobrados de pé. Casas sem moradores caem. As do Pelô exibiam as marcas da decadência da humanidade que as povoava e as mantinha erguidas.
ACM é um nome que se evita — a não ser que se queira xingá-lo ou adulá-lo. Medir objetivamente seu legado é anátema. Tou fora. Truculento, vingativo, populista, Antônio Carlos Magalhães era o tipo de político de que desejei ver a Bahia e o Brasil livres.
Fiz-lhe sempre oposição. Cantei nos comícios de Waldir Pires, que se elegeu governador.
Mas Waldir uniu-se com parte da oligarquia rural que odiava ACM desde sempre. O vice de Waldir era um representante dessa oligarquia.
Waldir mal esquentou a cadeira: saiu para tentar ser vice na candidatura furada de dr. Ulysses. ACM voltou em glória nas eleições seguintes.
A essa altura, ele já tinha feito as avenidas de vale (um projeto de 1942), ligando entre si partes distantes da cidade (outrora com tráfego apenas nas cumeadas). E atraído quadros de alto nível técnico. Na sua volta, retomou os trabalhos do Pelourinho, que floresceu. O escolhido para dirigir o projeto foi o antropólogo Vivaldo da Costa Lima. Vivaldo, cujo amor pela cultura do povo baiano não pode ser superestimado, não acolheria decisões malévolas.
Seja como for, a restauração, com os atrativos para quem quisesse estabelecer negócios ali, mudou a cara da cidade. Jovens que até os anos 80 nunca tinham ido ao centro histórico lotavam os bares do Pelourinho. Isso deu ao baiano uma nova autoimagem.
O atual governo do PT precisaria se posicionar de forma clara face ao legado de ACM. Sentir que talvez haja desprezo pelo Pelourinho deprime.
A explicação dada é que as facilitações oferecidas aos negociantes que ali se estabeleceram são artificiosas.
O secretário de Cultura, meu a m i g o M á r c i o Meirelles, é o responsável pelo destino da área.
Diretor do Bando de Teatro Olo dum, Márcio nos deu “Ó paí, ó!”. O elenco que ele reuniu é um espanto de vitalidade.
Mas, nesse e em outros espetáculos do grupo, o sarcasmo relativo à reforma do Pelourinho vinha colorir o ódio a ACM. Eu adorava a peça assim mesmo.
Arte é coisa séria. Aquelas pessoas falando e se movendo daquela maneira estão, na verdade, mais sintonizadas com as forças que fizeram possível a recuperação do Pelourinho do que com a demagogia que por vezes se comprazem em veicular contra ela.
Depois vieram o Recife Velho, o Centro de São Luís, algo do Centro de São Paulo — e sobretudo veio vindo a Lapa.
A iniciativa privada se achegou, a Sala Cecília Meireles dera a largada, o Estado entrou com o trato dos arcos, iluminação, policiamento — e temos uma mostra de como nos vemos nestes anos FHLula.
O governo petista da Bahia deveria tomar o Pelourinho como uma joia a ser cuidada. Aproveitar o aproveitável de ACM –— e fazer melhor. Não é saudável fazer com os benefícios aos negociantes aderentes o que Ipojuca Pontes fez com o cinema ao acabar com a Embrafilme.
Esse privatismo repentino soa suspeito. O abandono do centro histórico tem parte no aumento da criminalidade.
Política para mim é isso. Capturar as forças regenerativas da sociedade e trabalhar a partir delas. Não se atar a facções ideológicas como a torcidas de futebol — nem, muito menos, a grupos de interesses inescrupulosos.
Há a frase bonita de Verger: “Devia se erguer no Pelourinho um monumento às putas”